Acordamos cedo e após mais um café da manhã no hotel, com a característica vista espetacular, seguimos para a loja de tour para embarcar na caminhonete que nos levaria ao Quilotoa.
Dada minha experiênicia ruim, já estava pronto a ver uma F1000 de 1970 em estado deplorável. Com um atraso de cerca de 40 minutos do horário combinado acabo por me surpreender. Chega um bondoso senhor em uma espécie de Frontier cabine dupla praticamente nova.
Na ida o senhor diz que irão mais duas pessoas. A namorada já faz cara de estressada, e dessa vez com toda razão. Afinal a mulher da loja disse que estávamos pagando relativamente caro porque só iriámos os dois. Daí ir apertado na caminhonete seria motivo para cancelar o passeio.
Para nossa surpresa os dois eram na verdade amigos do guia, que deveriam estar indo de carona pra não perder a oportunidade e foram na caçamba da caminhonete.
Tudo certo e iniciamos o passeio. Logo na saída da cidade o guia mostra um pedaço da estrada que foi destruído pela última erupção do vulcão Tungurahua, acontecido em outubro de 2006 e que fez com que a cidade fosse evacuada por algumas horas.
A lava correu ao lado do centro da cidade mas passou por casas e até mesmo um hotel (algumas das casas podem ser vistas cobertas da massa preta que a lava se torna ao esfriar).
No caminho que leva nada menos que quase 4 horas (é quase a volta para Quito), ficamos admirados pela beleza da serra em que passamos.
No caminho a caminhonete é parada em determinados “pedágios”. Na verdade são crianças que levantam cordas no meio da estrada forçando os motoristas a pararem. No início parece até bonitinho, mas depois de MUITAS paradas e já sem moedinhas para dar aos pequenos anjinhos, os mesmos começavam a bater no carro, tendo um deles inclusive aberto a porta ao lado da minha namorada. Resumo da história, apesar de crianças, tratava-se de nada mais que uma espécie de extorsão.
Querendo ou não, não pude deixar de pensar que se estivesse fazendo aquela viagem dirigindo meu próprio carro, algumas daquelas crianças se não fossem rápidas seriam arrastadas até o Quilotoa, porque num país estranho e no meio de montanhas desoladas eu não pararia meu carro numa barreira daquelas nem sob pressão.
Próximo da chegada paramos em um vilarejo para almoçar. Apesar da simplicidade do local o almoço simples é bastante saboroso.
Com pouco mais de 30 minutos chegamos à entrada da lagoa. Carro estacionado e caminhamos pouco até um mirante que dá vista para a lagoa abaixo.
Explicar o que se sente com a visão daquele local é quase inútil. É preciso ver para crer, e mesmo assim creio que cada um deve ter uma experiência muito própria ante a visão daquele pedaço de paraíso na terra.
Falando em ver, vale frisar um acontecimento inusitado. Quando estamos nos preparando para iniciar a descida até a lagoa, vemos um senhor cego no mirante. Por si só isso seria um acontecimento inusitado, mas dias atrás, mais precisamente em Cartagena, conversando com a namorada, a mesma disse não entender como seria possível um cego ir a Cartagena, se não teria o que ”ver” na cidade. Eu disse se tratar quase de um preconceito da parte dela e que um cego teria uma outra percepção da cidade que nós jamais teríamos.
A visão daquele senhor idoso e cego em um mirante com uma das vistas mais espetaculares da terra foi o bastante para me fazer crer que eu tinha razão.
Iniciamos a descida até a lagoa abaixo. Mas quando digo abaixo eu quero dizer BEM abaixo. Uma primeira vista e parece difícil acreditar que seja fácil descer até lá. Pergunto mais uma vez ao guia que diz ser bem traquilo e que se ficar complicado dá pra subir de mula.
A descida é meio complicada mas possível e as vistas que se tem pelo caminho quase te impedem de pensar no quão ingríme aquela descida é. No caminho passamos por inúmeras crianças e mulheres que descem e sobem com mulas sem parar, sempre oferendo uma para os incautos viajantes. Ora, mula pra descer? Até parece, afinal para baixo todo santo ajuda.
Quando estamos a menos de um quarto do caminho vemos os dois amigos do guia chegando na lagoa.
Apesar de passarmos por inúmeras pessoas subindo, transpirando feito loucas, respirando com dificuldade, se arrastando e pedindo socorro, seguimos descendo.
Finalmente chegamos ao fim do caminho e temos uma visão geral da lagoa, dessa vez de baixo pra cima. Vemos os grandes paredões e a água verdinha da lagoa. Ainda vemos um bonito cachorro boxer que segundo seus donos desceu com eles sem problema.
Após uma série de fotos e de descobrirmos que a água da lagoa é salgada, o que nos faz pensar se aquilo tudo um dia já foi mar, solicitamos duas mulas ao pessoal que aluga os bichos e após dialogarem com o guia, que começa a rir nervosamente, este nos diz que não querem alugar as mulas por eu ser muito gordo.
Ok, Ok, Ok. Tenho consciência que estou bem acima do meu peso, mas aquelas mulas pareciam capazes de carregar muito mais que a minha pessoa. Após um pequeno stress resolvemos que por falta de opção faremos a subida a pé.
Mal começamos a caminhada e uma senhora descendo com uma mula nos oferece a mula para subirmos. Explicamos que adorariamos, mas o pessoal abaixo disse que não poderia nos fornecer as mulas. Ela imediatamente chega junto a uma pedra e começa a gritar com as pessoas lá embaixo. Em segundos as mulas são enviadas para nós. O guia explica que a senhora é a manda-chuva do local. Ou seja, pra ela perder negócio jamais.
Aguardando a chegada da mula vemos uma Lhama que vem até nós e fica por ali. Após um tempo olho pra baixo e vejo a Lhama colocando o Boxer pra correr.
As mulas chegam e subimos nelas. Tudo parece que vai correr bem, não fosse dois pequenos detalhes. O primeiro é que as mulas não têm selas. São só panos colocados no dorso do animal com uma cordinha meia-boca passando pelo pescoço. Segundo que a trilha é estreita e passa por desfiladeiros de filme de terror.
Mal subimos nas mulas e a namorada começa a dizer que não vai conseguir. Tento convencê-la a tentar, mas quando a mula começa a andar rente a um desfiladeiro e automaticamente eu a balançar, dada a falta de sela, percebo o que ela está sentindo e aceito que não vai ser possível.
Olhamos pra cima e percebemos que a entrada está BEM acima. Sem muitas alternativas iniciamos a caminhada.
Com poucos minutos de subida já começo a imaginar a VACA da mulher que nos vendeu o tour dizendo que era “fácil e tranquilo”, sofrendo torturas medievais que fariam até os inquisidores espanhóis corarem de vergonha.
Mais ou menos no meio do caminho me encontro sentado em uma pedra sozinho tentando encontrar ar para os pulmões. A namorada conseguiu fôlego para subir um pouco mais e o guia já desistiu de nos esperar e segue subindo como se nada estivesse acontecendo. Olho para aquele local e no princípio de fim de tarde, com aquele visual, com as nuvens entrando na boca da montanha e tocando a lagoa percebo um silêncio e uma paz como jamais senti na minha vida. A experiência é única e passa rapidamente, mas deixa algo em mim. Uma sensação boa e que me faz agradecer a Deus por tudo aquilo. Sinto-me feliz e por alguns instantes consigo deixar de pensar em maneiras sórdidas de matar a mulher do tour.
Mais acima encontramos uma senhora. Ela está sentada com uma garotinha ao lado admirando a paisagem. Paramos por perto e ofereço água a ela. Ela aceita e na conversa que iniciamos diz se chamar Luz, e diz ter descido até ali (até onde aguentou) apenas para admirar o local. Nos ensina a respirar corretamente o que ela diz ser o verdadeiro ar puro. Depois diz ter 71 anos.
Admirados seguimos subindo, em poucos minutos Luz nos passa e segue sua caminhada.
Paro constantemente para respirar e sinto pontadas no coração. Acho que vou morrer e que a experiência que tive mais cedo não passou de uma experiência pré-morte. A namorada fica preocupada e diz que devemos chamar ajuda. AJUDA?!?! A única ajuda disponível naquele lugar é uma mula sem sela.
A “tranquila” caminhada até o topo dura mais de 3 horas e ao chegar ao topo, instintivamente me ajoelho e agradeço por ter conseguido chegar até ali sem ter tido um ataque cardíaco ou um AVC.
A sensação de ter conseguido é boa, mas a certeza de que preciso emagrecer e entrar em forma para pelo menos conseguir fazer uma subida daquelas sem parar a cada 5 minutos é maior.
A volta até a cidade é tranquila e sem grandes acontecimentos.
Jantamos uma comida leve e voltamos ao hotel. No caminho passamos pela loja de tour e vejo a senhora que nos vendeu o tour nos sorrindo e perguntando como foi tudo. Minha namorada se adianta a minha resposta e diz que foi tudo ótimo mas que foi “um pouquinho” difícil a subida. Eu volto a pensar nas torturas… volto a pensar COM FORÇA.
Deitado na cama pouco antes de dormir penso que tive uma bela experiência de vida e que apesar dos pesares tudo valeu a pena. Faria novamente.
Continua…