Como diria o quadro do Rá Tim Bum: “SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA!”
Após uma noite de frio que é difícil acreditar ser gerado apenas por um ônibus, finalmente chegamos ao terminal rodoviário de Maracaibo.
Já descemos com uma idéia fixa em mente, pegar um ônibus que nos deixe na cidade de Cartagena na Colômbia e nos tire da Venezuela.
Seguimos direto para a única empresa que faz o percurso, quando somos gentilmente informados que a empresa só tem passagem para Cartagena (ou para qualquer lugar próximo na Colômbia) para o fim de Janeiro.
(quem mandou fazer viagem sem planejamento!?!?!)
Cansados e querendo só um lugar para dormir descobrimos que de táxi podemos ir até a fronteira da Venezuela e ao atravessar, chegamos a Maicao na Colômbia, onde conseguimos com facilidade ônibus para Cartagena. (fácil??? NADA tem sido fácil)
Os “táxis” na verdade são carros que já deveriam ter deixado de rodar a pelo menos 10 anos, e com taxistas de cara NADA amigável para quem pretende fazer uma viagem de 3 horas nos carros mencionados.
Encontramos um que parece razoável mas somos informados que temos de esperar até completar 5 pessoas. É isso mesmo, 5 pessoas MAIS o motorista.
Namorada super insegura, só realmente aceitamos seguir adiante quando uma mãe com a filha pequena acerta a mesma viagem até Maicao.
Uma hora e meia depois, carro cheio e nós apertados no banco de trás, seguimos rumo à fronteira que nos tirará desse país.
Duas horas e meia seguindo por uma via até razoável e sendo parado de vez em quando em algumas barreiras militares, percebemos que o passaporte do Mercosul é bem respeitado por aqui. A mera visão do passaporte e os militares já nos permitem seguir viagem tranquilamente.
Já quase chegando à fronteira paramos em um posto aonde devemos pagar uma taxa para sair da Venezuela (é isso aí, aqui você não pede para sair, aqui você PAGA pra sair).
Ao descer do taxi para ir ao posto meu braço começa a coçar violentamente. Na dúvida a respeito do que pode ser, começo a imaginar que posso ter sido picado sem ter percebido.
A fila para o posto é imensa e ficamos aguardando debaixo de um sol escaldante, e o pior, com um olho no táxi que pode partir com nossas mochilas no bagageiro a qualquer momento.
Taxa paga e seguimos por mais uns minutos até a fronteira propriamente dita. Local aonde o taxista nos deixa e aponta o prédio da imigração aonde devemos carimbar nossa saída.
Somos prontamente abordados por um rapaz com um carrinho de mão que por um valor módico diz que passará com nossa bagagem pela fronteria sem precisar perder o tempo de ser revistada. Todos que estavam no táxi concordam e partimos para o prédio da imigração. Com uma fila ABSURDAMENTE grande.
É quando surge um “probleminha”. O carinha do carrinho diz que por um preço já não tão módico assim pode agilizar o processo e nos passar na frente. Não aceitamos e ele diz que não pode ficar parado esperando que passemos pela imigração. Após uma pequena discussão ele aceita devolver o dinheiro.
Fico vigiando as bagagens enquanto minha namorada segue para a fila. No período de tempo em que fico vendo o posto de fiscalização da fronteira chego a conclusão de que aquilo é uma grande brincadeira.
Pessoas passam sem serem revistadas, carros são revistados de olho, policiais recebem propina como se estivessem recebendo um pagamento obrigatório. Uma farra que só vendo para acreditar.
Cerca de 2 horas depois conseguimos nosso carimbo de saída e após simplesmente sair andando pela fronteira, sem nem mesmo sermos abordados por um policial, finalmente passamos pela fronteira da Venezuela, um país que eu particularmente não tenho a menor vontade de voltar, mas que me deu bastante aprendizado de vida e histórias para contar.
Nesse ponto chegamos numa verdadeira terra sem lei. Um espaço de terra que não é nem Venezuela nem Colômbia, e que juro por tudo que é mais sagrado, parece MUITO com aquelas fronteiras de refugiados de filmes de guerra.
Seguimos com um bondoso senhor que estava no táxi conosco que nos leva até o prédio da imigracao colombiana. E eu sempre pensando que aquele bondoso velinho que levava um balde fechado no qual disse ter queijo, devia na verdade estar cheio de cocaína ou algo que seria descoberto pelos bem mal-encarados policiais colombianos e o velinho nos levaria junto pra cadeia.
Mais uma fila de 2 horas para conseguir o carimbo de entrada na Colômbia, com um item em especial, o policial que controlava a fila era um sujeito com cara de poucos amigos e um pedaço de pau na mão e com uma cara de que se brincasse com ele levava uma paulada na cabeça.
Seguimos, para minha real surpresa, da fronteira da Venezuela até a Colômbia sem sermos nem mesmo abordados por alguém que verificasse nossa bagagem.
Na procura de um ônibus que nos deixe na Rodoviária de Maicao para que possamos finalmente seguir para Cartagena, encontramos o que vinha a ser um ferro-velho sobre rodas, mas seguimos por ser uma viagem rápida de meia hora.
No meio da viagem uma comprovação da corrupção policial mais do que explícita. O ônibus conta com uma caixa de Whisky ao lado do motorista, que a cada parada em um posto policial vai entregando uma garrafa ao policial que o aborda.
Após quase 24 horas de viagem ininterrupta desde a saída de Chichiriviche, chegamos finalmente à Rodoviária de Maicao prontos para embarcar num ônibus leito para descansar nas 9 horas de viagem até Cartagena.
Quem está acompanhando esse relato desde o princípio já sabe que não seria tão simples assim, não é?
Os únicos ônibus partindo para Cartagena eram comuns, sem ar, sem banheiro e com um espaço para as pernas que mal cabia uma criança. Já quase decididos a ficar em Maicao (uma cidade MUITO POUCO simpática), descobrimos um ônibus bastante razoável que partiria para Barranquilla, uma cidade bem próxima de Cartagena, onde ou poderíamos passar a noite, ou seguir para Cartagena.
Passagem comprada, bagagem embarcada e cerca de duas horas depois já com minha namorada dormindo o sono dos justos, ouço o motorista dizer a frase: “Com essa quantidade de passageiros eu não viajo.”
Como haviam apenas 9 passageiros, o motorista simplesmente se recusou a fazer a viagem. O pessoal que havia vendido a passagem devolve o dinheiro de todos e seguimos para o pátio de uma empresa para ver se havia algum ônibus fazendo o trajeto que pudesse nos levar.
Quando encontramos o ônibus disponível, os próprios colombianos que foram vê-lo voltam dizendo que não viajam naquela “espelunca” de jeito nenhum.
O dono da empresa então surge com uma van, com ar condicionado que nos levaria até Barranquilla em 5 horas. Todos aceitamos, mas quando vamos sentar, uma senhora DESGRAÇADA, ocupa os dois bancos nos quais poderíamos viajar com traquilidade. Temos de viajar no banco da frente.
Quando se pensa em andar numa van na frente, não parece algo ruim, mas 5 horas de viagem com a coluna de lado por causa do câmbio da van é algo ABSURDAMENTE RUIM.
Bem ou mal, seguimos viagem para Barranquilla por estradas escuras, isoladas, e com barreiras militares a cada 5 minutos, que só nos faziam pensar na maldita FARC que poderia nos emboscar no meio da noite, e nos levar para viver mais uns 5 anos com a Senadora Ingrid Betancourt.
5 horas depois avistamos um relance de cidade habitada, chegamos em Barranquilla. O motorista da Van, nos deixa debaixo de uma ponte, aonde existem outras vans que vão até Cartagena.
Ao descer da van uma nova crise de coceira me ataca. Dessa vez nos dois braços e na barriga, começo a ficar preocupado que a roupa esteja com pulga ou que tenha pegado uma alergia.
Mais duas horas dentro da van, num frio do cão, esperando 3 passageiros que aparecessem de madrugada debaixo daquela ponte para encher a van, e finalmente seguimos para Cartagena. Ainda no mesmo esquema anterior, estrada escura, vazia, e com várias paradas militares e cerca de uma hora e meia depois adentramos a cidade de Cartagena.
QUEBRADOS, CANSADOS, DE SACO CHEIO e IRRITADOS somos levados a um hotel que segundo o motorista da van é um dos melhores. Mas que quando perguntamos na recepção, não tem água quente. Um item que geralmente pode ser deixado de lado. Mas eram 5 da manhã, estávamos viajando a mais de 36 horas seguidas e tudo que queríamos era um maldito banho quente e uma cama.
Conseguimos que o motorista da van procure um hotel com água quente, e quando ele consegue, descobrimos que o hotel cobra um valor exorbitante e que água quente não é comum por lá.
Desesperançosos e desanimados voltamos ao primeiro hotel e resolvemos passar a noite por lá mesmo e procurar um outro depois.
Após um banho nada relaxante, minha namorada quase grita “O que é isso nas suas costas!?!?!”

Dada a quantidade e as localizações, chegamos a uma única conclusão. Tão lembrados do enxame de proporções bíblicas na praia em Chichiriviche? Aí em cima tá o resultado.
Descidido a ficar milionário para viajar o mundo de jatinho particular e me hospedando apenas em hotéis 5 estrelas vou pra cama.
Continua…