Acordo logo cedo e deixo a namorada (mais uma vez com um início persistente de gripe) na cama. Sigo para a rodoviária para comprar as passagens para Guayaquil, com parada por uma farmácia para comprar anti-gripal (aliás, para quem for viajar, consultei inúmeros sites que indicavam uma boa quantidade de remédios para levar e muitos foram até úteis, mas nenhum falava e nem eu lembrei do básico contra a gripe, algo que a namorada sentiu bastante falta).
Ao sair me surpreendo com o trânsito na cidade. Ruas realmente cheias e ainda muitos homens vestidos de mulheres coletando dinheiro nos carros.
Chego na Rodoviária e a moça diz que infelizmente os assentos da frente já tinham sido comprados mas afirma categoricamente que o ônibus é grande, que os assentos tem bastante espaço, inclusive para esticar as pernas. Fico mais trânquilo e compro as duas passagens com saída às 23:00 do mesmo dia.
Passo pela farmácia e ao voltar para o hotel passo pelo recepcionista e um rapaz no corredor. Ao chegar no quarto encontro a porta aberta e minha namorada com cara de assustada. Pergunto o que aconteceu e ela diz que um cara entrou no quarto e ela estava meio dormindo e quando ela percebeu que não era eu ele já estava cambaleando em direção à cama.
Na hora corro na recepção mas o mais que sem graça do atendente me pede desculpas e diz que foi uma falha e que era apenas um bêbado que entrou mas que já havia sido expulso. Ainda saio na rua na intenção de se encontrá-lo quebrar-lhe a cara, mas não o vejo.
Volto para o quarto e a namorada explica que nada aconteceu. Que quando ela levantou e começou a expulsar ele do quarto ele saiu e se escondeu, foi quando ela chamou o recepcionista que logo o tirou do hotel, quando eu estava entrando.
Resumo da história, por questão de 2 ou 3 minutos o cara se livrou de levar uma surra de gente grande, porque se eu entro no quarto e vejo um cara estranho e minha namorada com cara de assustada, não ia pensar duas vezes antes de partir pra cima dele.
Enfim, nenhum incidente grave aconteceu e aprendi a jamais sair sem trancar a porta por dentro, mesmo que seja rapidamente.
Malas prontas e deixamos no hotel (que tinha check-out ao meio-dia) e partimos em direção a um SPA que a namorada havia visto em um folheto no restaurante na noite anterior.
O lugar parecia bacana e não custa pelo menos ir conhecer.
20 minutos de táxi e chegamos ao Luna Runtun, um SPA hotel que fica no topo de uma montanha. O lugar é simplesmente SENSACIONAL e a namorada não resiste a ficar e fazer alguns tratamentos e uma massagem completa no corpo.
E eu? Bom, eu fico deitado em uma Jacuzzi com uma vista inacreditável. Consigo até ver o terraço em que tomamos café da manhã nos dias anteriores. O relaxamento daquela água quente e borbulhante me faz novamente pensar em ficar milionário e me hospedar apenas em lugares assim.
Mas na verdade não o faria. Se hospedar em lugar daquele seria abrir mão de passar o que passamos na cidade de Baños, pois ninguém pagaria pra ficar num lugar completo daqueles apenas para dormir.
Acho que fizémos um belo negócio em passar lá no último dia apenas para relaxar por cerca de 6 horas.
Depois de algumas horas um casal também entra na Jacuzzi e em minutos inicíamos uma conversa. Conheço Dan, um americano com quem me identifico logo. Viveu quando criança no Equador por 9 anos e agora estava voltando com a esposa depois de mais de 15 anos sem vir ao país. Muito papo depois e sigo para o spa para esperar a saída da namorada.
Depois das quebradeiras que passamos até aqui a namorada aparece como uma nova mulher. Mais bonita, jovial, relaxada e sorrindo a tôa. Recomendo a todos os namorados que nessas viagens façam uma “loucura” dessas pelo menos uma vez. O benefício vale o custo. E por incrível que pareça o custo é menor do que se pode imaginar para um lugar daqueles.
Como estava incluído no pacote escolhido pela namorada, jantamos no restaurante de lá e aprendemos com a maître sobre a simbologia do ano novo de Baños. Ela diz que os bonecos são as pessoas que você gosta e que a queima deles representa um novo ano cheio de coisas novas. Diz ainda que se anota num papel todas as coisas ruins que você não gosta e joga nas cinzas. Por últimos diz que os pulos na fogueira devem ser dados 10 vezes para trazer sorte.
Quem dera soubessemos de tudo isso na noite anterior.
Saímos de lá renovados, relaxados e prontos para o que desse e viesse na viagem. Bom não exatamente para tudo.
Buscamos as mochilas no hotel e após um pouco de internet seguimos para a rodoviária para embarcar no ônibus que nos levaria a Guayquil, última cidade visitada no Equador.
Para começar a rodoviária INTEIRA estava fechada e sem nenhum ônibus no estacionamento.
Ao perguntar para um rapaz que estava por lá ele nos diz que o ônibus passa na rua e pára quando tem gente. Seguimos para o ponto imaginário aonde tinha diversas outras pessoas e aguardamos nosso ônibus.
Logo chega um casal inglês também de mochilão e que vai seguir no mesmo ônibus que nós, o que me tranquiliza um pouco. Após inúmeros sustos de ônibus caindo aos pedaços que paravam mas que não eram os nossos, o ônibus 37 com destino a Guayaquil chega.
Após as malas serem guardadas e sentarmos em nossos assentos um pensamento muito sincero passa pela minha cabeça, e quem me conhece sabe que isso pra mim seria quase impossível de imaginar. Penso seriamente em descer do ônibus, me deitar na rodoviária, esperar o dia seguinte e ao abrir a loja, entrar olhar nos olhos da mulher que nos vendeu a passagem e dar-lhe um tapa na cara com toda a força possível.
O ônibus sem sombra de dúvida foi o pior que já pegamos até aqui. Os assentos eram MUITO, mas MUITO MAIS APERTADOS que qualquer avião brasileiro que as pessoas tanto reclamam. Meu joelho estava pressionado no ferro da cadeira da frente e a namorada não parecia nada melhor. Acha que é tudo? O ônibus tinha ar-condicionado, logo as janelas eram soldadas para não serem abertas. Tudo certo, se não fosse o fato do ar-condicionado NÃO ESTAR FUNCIONANDO.
Não bastasse isso tudo a viagem levaria 7 HORAS!!! Nunca senti tanta raiva de uma só pessoa em minha vida. E caso um dia volte a Baños tenho medo de encontrar a mulher que nos vendeu a passagem.
Desesperado e sem chance de melhoras olho para a cadeira ao lado e vejo o casal de ingleses. O cara, medindo pelo menos 1,85m estava com as pernas quase no peito. Me limito a dizer a namorada dele “It’s not gonna be easy!” (Não vai ser fácil!), fechar os olhos e aguardar a noite de pesadelo.
Continua…